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Hora de levantar!

Hábitos noturnos, geralmente estimulados nas férias, prejudicam o desempenho escolar de quem estuda de manhã. Para especialista, escolas deveriam rever horário de início das aulas

Em plena era da comunicação, é difícil encontrar um adolescente que não goste de assistir televisão ou navegar na internet até altas horas. Bate papo e redes sociais são tentações até mesmo para os adultos. Como resultado, boa parte da manhã – ou até ela toda – é dedicada ao sono.

Neste período, o hábito não chega a ser um problema, mas, na maior parte do ano, os pais penam para fazer os filhos pularem da cama cedo e ir para a escola. E mesmo quando o estudante vai para a aula, o desempenho pode ser comprometido pelas noites maldormidas.

Por isso o ideal é que, mesmo em tempos de férias, os exageros sejam evitados. É indesejado, por exemplo, que o adolescente desenvolva o costume de “trocar a noite pelo dia”.
 

O professor Fernando Lou­zada, doutor em Neurociências, fez um estudo que reforça o efeito do sono sobre a aprendizagem. Autor do livro O Sono na Sala de Aula: tempo escolar e tempo biológico, ele afirma que quem estuda de manhã dorme menos em relação àqueles que frequentam as aulas à tarde.

Pesquisa

Veterano no estudo da relação do sono e o desempenho escolar, Louzada colheu novos dados sobre o tema entre março de 2008 a julho de 2010, em uma pesquisa realizada em conjunto com a estudante de Biologia Liz Meira Goés. Foram consultados 638 estudantes, com idade entre 10 e 16 anos, de quatro escolas da rede pública, dos quais 198 homens e 440 mulheres. O estudo apontou a necessidade de mudanças no modelo atual de horário das aulas.

“É importante as escolas repensarem o início das aulas da manhã”, diz Louzada. As crianças e adolescentes que estudam de manhã dormem 1h30 a 2 horas a menos em relação às que estudam à tarde, diz o professor. Para contornar a situação, uma das alternativas é atrasar o início das aulas matutinas.

A coordenadora do setor de Pediatria e Adolescentes do Instituto do Sono de São Paulo, Márcia Pradella-Hallinan, diz que o adolescente precisa dormir mais que o adulto – por um período médio de 9h30. As conse­quências para aqueles que têm uma carga horária de sono inadequada são alteração do humor, de comportamento, dificuldade no aprendizado, ausência na escola e sonolência nas aulas. “O adolescente sofre um atraso fisiológico do seu relógio biológico, o que faz com que tenha um atraso para o despertar – dorme em geral 1 hora mais tarde e precisa dormir cerca de 1 hora a mais devido à maior necessidade orgânica de sono”, explica. Márcia também defende que o ideal seria ajustar um adequado ritmo de sono com um horário um pouco mais tarde nas aulas, ou optar por estudar à tarde ou à noite.

Experiência

Nos Estados Unidos e em Israel alguns colégios já perceberam a dificuldade dos adolescentes em acordar e atrasaram o início das aulas matutinas. Os norte-americanos começaram a estudar o sono dos adolescentes na década de 80. Uma das pesquisas evidenciou que o atraso no horário de dormir era mais comum em indivíduos na fase da puberdade, conclusão semelhante a de pesquisadores brasileiros.

No Brasil, o atraso no início das aulas pela manhã esbarra nas escalas rígidas dos colégios e na necessidade de adaptação ao horário de trabalho dos pais. Na rede pública, a lógica adotada por algumas escolas é não misturar adolescentes e crianças. Com isso, a oferta de aulas para adolescentes no turno matutino é farta. Já quem gostaria de matricular o filho adolescente no período da tarde geralmente fica sem opção.

Realidade local

Alguns colégios nem cogitam a possibilidade de mudanças no horário. O argumento é que hoje os atrasos não justificam uma alteração. Um exemplo é o Colégio Estadual Ayrton Sena, em Foz do Iguaçu, onde há aulas do 6.º ano ao ensino médio pela manhã. “Não tem muito atraso, os alunos acabam se acostumando com o horário”, diz a pedagoga Adriana Leiko.

Em escolas com horário de entrada mais flexível, porém, os resultados têm se mostrado compensadores. No Colégio Anglo de Foz do Iguaçu, o sinal bate às 7h50 – diferentemente da rede pública, onde o período letivo começa às 7h30. Lá, o número de alunos atrasados e sonolentos não é problema para professores e pedagogos. No Colégio Monjolo, também da rede particular da cidade, onde há turno integral e as aulas começam às 8 horas, não há registros de atrasos excessivos.

Os colégios com o tradicional horário das 7h30 tentam driblar o problema, quando aparece. O Colégio Bom Jesus, de Curitiba, é um exemplo. A assessora pedagógica Adriana Wendling diz estar ciente da dificuldade dos adolescentes. Por isso os pais são orientados a pedir aos alunos que tenham uma carga horária de sono regular. Quanto aos alunos, a escola reafirma a importância do sono durante as aulas de Ciências.

Essa tarefa, entretanto, não cabe somente à escola. Professores e pedagogos ouvidos pela reportagem ressaltam a necessidade de empenho dos pais para orientar os filhos a não ficar até tarde no computador ou na televisão.

Escola muda horário e zera taxa de evasão

O Colégio Estadual Francisco Brasiliano Fusco, situado no Bairro Campo Limpo, em São Paulo, tornou-se referência no país por ter mudado o horário de estudos dos adolescentes. Lá, o turno das au­las está afinado com o relógio biológico das faixas etárias: crianças estudam de manhã; alunos do 5.º ao 9.º ano, à tarde; e do ensino médio, à noite.

A mudança, que começou em 2007, apresentou resultados. A taxa de evasão no ensino médio, que antes oscilava entre 15% e 20%, este ano foi zero. “Em três anos a evasão zerou”, diz a diretora da escola Rosângela Macedo Moura.

Rosângela percebeu, quando foi trabalhar na escola, que muitos alunos adolescentes chegavam atrasados à aula e alguns só apareciam na segunda aula. Com mais de 20 anos de experiência em sala de aula, mãe de adolescentes, ela já sabia das pesquisas que sugeriam aos adolescentes o turno da tarde e da noite para estudar e teve a ideia de fazer um teste, mudando os turnos. Após a realização de um plebiscito e vencida a resistência dos pais, o plano foi colocado em prática e hoje a escola é uma referência. “A escola é bastante procurada na região” diz.

Fonte: Gazeta do Povo

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